:. Conectiva Linux 10 - O caminho das pedras
Este é o terceiro e último artigo de uma série de 3 que resolvi escrever narrando minhas aventuras com o Linux, particularmente com o CL10 - Conectiva Linux 10. Os artigos anteriores podem ser encontrados no endereço abaixo:
http://guiadohardware.net/news/2004/08/cl10.htm
http://guiadohardware.net/news/2004/08/cl10-2.htm
Trata-se realmente de uma aventura, não só para mim que sou novato em Linux, apesar dos meus 50 de idade e quase 30 no uso diário de computadores, mas também para aqueles que dormem com o Pinguim debaixo do travesseiro. É isso mesmo, pelo que tenho visto pelos incontáveis fóruns existentes por ai, acho que a turma que respira, bebe e come Linux todos os dias também apanha muito do Pinguim. Acho até que poderíamos dividir o universo de usuários Linux em dois grandes grupos:
a) Usuário com imersão total no mundo Linux, seja por necessidade profissional, seja por hobby.
b) Usuários comuns com potencial para adotar o Linux ou em vias de adotar o linux como ferramenta de trabalho apenas.
Essa divisão, embora subjetiva, me parece apropriada para a discussão de estratégias de marketing e expansão do Linux. Pelo teor da grande maioria das mensagens que vejo postadas nos fóruns de discussão, sem levar em conta a distribuição em foco, o grupo (a) é de longe o maior deles. São pessoas dedicadas que efetivamente usam o linux profissionalmente ou o adotaram como hobby. Com relação ao profissional não há o que comentar. O hobbista, neste contexto, é aquele que pode dedicar uma parte de seu tempo à pesquisa e leitura de howtos e tutoriais sobre Linux. O hobbista, além do tempo disponível, gosta do desafio de compilar um programa e sentir que está no comando do SO. O hobbista faz do linux uma atividade e não apenas uma ferramenta de trabalho.
Já o grupo (b) é formado por indivíduos que além de não estarem profissionalmente envolvidos com o Linux, têm outros interesses, compromissos e hobbies. Esse grupo (b), acredito eu, pequeno dentro do Universo Linux, é enorme dentro do Universo de Usuários de Computador. São todos potenciais candidatos a usuários Linux. É para este grupo, diga-se, gigantesco, que chamo de grupo de usuários comuns, que a estratégia para expansão do Linux deve se concentrar. Caso contrário, o crescimento do Linux continuará sendo marginal e localizado no mundo corporativo apenas.
É bom que se note que o usuário comum, por regra, não é um analfabeto em computadores nem muito menos um indivíduo refratário à leitura de material técnico. Este usuário apenas tem outras prioridades que não a leitura de tutoriais e howtos sobre Linux. Digo isto porque tenho visto com muita frequência, sugestões, muitas vezes deselegantes, para que os novos usuários como eu, por exemplo, não sejam preguiçosos e leiam mais howtos e tutoriais antes de reclamarem de dificuldades com o Linux. Acho que esse tipo de conselho dado de modo descuidado é um ótimo espanta usuário. - Cuidado pessoal !
Para este grupo (b) de usuários comuns, é de fundamental importância que 4 aspectos sejam muito bem estruturados e amigáveis:
1) Instalação do sistema,
2) Maior base para reconhecimento e instalação automática de hardware.
3) Configuração e manutenção do sistema,
4) Instalação e configuração de programas adicionais, se possível, com a transposição amigável entre as principais distribuições.
A expansão do software seria uma consequência direta dos aspectos acima.
Não sou guru nem especialista em marketing, mas estou convencido que sem estes 4 requisitos, o futuro do Linux, no mínimo, é uma incógnita.
Felizmente, essa estratégia já vêm sendo perseguida por várias distribuições. Só aqui no Brasil temos o exemplo da Conectiva e da família Kurumim, abrangendo variantes com a mesma filosofia de Sistema Simples e Amigável, mas com algumas diferenças de estilo:
- Kalango Linux - http://www.kalangolinux.org/
- BigLinux - http://biglinux.codigolivre.org.br/index.php
- Dizinha - http://www.dizinha.cjb.net/
Todos derivados do excelente projeto Kurumin do Carlos Morimoto que por sua vez inspirou-se no Knoppix alemão.
Mas vamos ao CL10 que é o principal motivo de nossas considerações. A Conectiva é uma empresa Brasileira com sede em Curitiba e fundada em 1995, ou seja, já conta com 9 anos de tradição no desenvolvimento e uso da plataforma Linux para o Mundo Corporativo. Isso acarreta algumas responsabilidades e deveria haver um maior cuidado com a qualidade e apresentação do seu produto, no caso, o CL10.
Sob uma perspectiva neutra, eu vejo que a comunidade Linux, isto é, o grupo (a) de usuários, costuma deixar barato vários pequenos problemas que poderiam ser facilmente sanados. Isto ocorre porque boa parte deste grupo tem o Linux como uma espécie de religião. Mas se o Linux quiser se expandir de fato, é preciso começar a sanar as inúmeras pequenas falhas que comprometem a simplicidade. É sob este prisma que trago aqui minhas críticas e sugestões. A intenção é somar e prestigiar a Conectiva, pois seu sistema já está com um bom padrão de qualidade. Não custa nada torná-lo melhor ainda.
Em termos de facilidade de uso e de sistema amigável, a família Kurumim está muito à frente do CL10, embora não conte com a mesma estrutura empresarial para o desenvolvimento. É por isto que estou focando minha atenção no CL10. Uma empresa deveria oferecer muito mais. Vou apresentar na forma de lista um resumo do que já foi apontado nos textos anteriores, indicados no início deste artigo, acrescido de diversos itens relativos ao uso do sistema instalado.
Pontos que requerem atenção do CL10:
INSTALADOR
1) Deveria indicar que o sistema de arquivo ext3 é o padrão mais indicado para o usuário normal.
2) Deveria ser mais informativo quanto às opções raid e lvm.
3) Deveria informar em que situação se deve optar pelo particionamento manual forçado, além de alertar o usuário que as opções de particionamento só irão aparecer se esta opção for marcada neste ponto da instalação.
4) Deveria ter em todas as telas a opção de abortar a instalação e/ou retornar ao início da mesma para permitir ao usuário rever todas as suas opções.
5) Deveria sugerir o tamanho da partição SWAP com base na memória RAM detectada.
6) Deveria ser mais informativo quanto aos gerenciadores LILO e GRUB. Quais as vantagens e desvantagens de cada um?
7) Deveria permitir a opção de não instalar gerenciador de boot e sim fazer um disquete de boot. Poderia também haver a opção de criar um disquete com um bootmanager.
CONFIGURAÇÃO E USO DO SISTEMA INSTALADO
1) Não sei se o problema ocorre com outras placas de som, mas com a placa CMI8338 houve o reconhecimento mas o sistema continuou mudo. Porque? Porque as opções de full-duplex não vieram habilitadas por default! Isso obriga o usuário comum a gastar um tempo enorme e precioso com pesquisa e leitura de howtos. Por que? Só por comodismo ou esquecimento da equipe de desenvolvimento?
2) Por que os drivers já disponíveis para Winmodens não vêm todos instalados? Em meu caso, por exemplo, existe o driver do Lucent. Por que o binário não acompanha a instalação? Novamente me parece comodismo ou desatenção da equipe de desenvolvimento.
É aqui que começa o massacre do usuário comum. No grupo (a) há muitos mazoquistas que gostam dessa tortura. Como não veio o binário do driver Lucent, precisei percorrer o caminho das pedras. Como roteiro segui os passos descritos em: - http://www.zago.eti.br/modem/lucentcl10.txt. Reproduzo aqui, em itálico, o roteiro acima com o intuito de comentar alguns aspectos muito chatos para o usuário comum. Não vai aqui nenhum demérito ao roteiro e seu autor, pois além de ter sido útil para mim, o mesmo é regra no Mundo Linux, mas é uma regra que precisa mudar já que é muito tediosa e complexa para o usuário comum.
Instalando o modem lucent no conectiva 10 RC1
A instalação do modem lucent no conectiva 10 RC1 e fácil e em poucos minutos você já esta navegando. Essa foi feita no modo Desktop corporativo. Primeiro passo e ter os fontes do kernel instalado. Você pode escolher pelo apt-get ou synaptic. Pelo synaptic procure por kernel26-source, task-c++-devel, task-c-devel e gcc.
Acho que cabe aqui avisar o usuário comum que os pacotes encontram-se nos CDs da distribuição e orientar que o SYNAPTIC é o programa que no KDE encontra-se no menu: Sistema>Gerenciador de pacotes (RPM). Clareza e objetividade são fundamentais.
Usaremos o wget para baixar o driver ltmodem-2.6-alk-2.tar.gz usar o wget e para quem tem algum amigo ou conexão no trabalho com speedy ou algo do tipo, caso não tenha faça o download pelo windows e logo após grave em disquete pelo windows com algum navegador.
http://linmodems.technion.ac.il/packages/ltmodem/kernel-2.6/ltmodem-2.6-alk-2.tar.gz
Usando o linux.
Wget http://linmodems.technion.ac.il/packages/ltmodem/kernel-2.6/ltmodem-2.6-alk-2.tar.gz
O usuário pode fazer o download do modo como sempre foi feito sem colocar o wget no meio da história. Isso é totalmente desnecessário neste caso. Só serve para confundir o usuário. Aproveito para comentar que os links acima não funcionam de cara no ConectivaOffice. É preciso ir no menu Ferramentas>Opções>Programas Externos e ajustar a chamada para o Mozilla, ou para o Konqueror. Ora, se o CL10 vem com o Mozilla e o Konqueror, custava vir com a opção já habilitada ? Isso pode parecer simples e desnecessário ao usuário do grupo (a), mas é bom lembrar que o usuário comum não tem a obrigação de saber que o programa mozilla está no diretório /usr/bin. Isso não é nem um pouco óbvio.
Agora vamos descompactar o driver.
tar -zxvf ltmodem-2.6-alk-2.tar.gz
Entre no diretorio do modem
cd ltmodem-2.6-alk-2
Antes de executar o comando make precisamos fazer uma modificações no Makefile e copiar um arquivo que contem informações sobre o processador que você usa na sua máquina faremos da seguite forma para processadores atlhon e duron.
Aqui também as coisas podem ser mais simples e elegantes. No Konqueror, basta clicar com a tecla direita do mouse sobre o arquivo compactado que surge um menu com a opção [ark]. Basta o usuário seguir as orientações de tela que são simples e extrair o arquivo para o diretório desejado. Tudo de modo simples e elegante como o usuário já está habituado em outras plataformas, sem precisar ir para a linha de comando.
cd /usr/src/linux-2.6.5-55674cl/configs
cp kernel-athlon.config /usr/src/linux-2.6.5-55674cl/.config
Para processadores pentium, por exemplo o pentium4 o arquivo que deve ser copiado e esse:cp kernel-pentium4.config /usr/src/linux-2.6.5-55674cl/.config
Ou o kernel 2.6.5-i686config para um Pentium III, como é meu caso (o melhor é experimentar e voltar neste ponto caso o comando make acuse erro de versão).
Todos estes passos podem ser executados de forma bem amigável com o Konqueror ou com mc Midnight Commander, um clone do Norton Commander do tempo do DOS e que realiza de modo simples uma série de tarefas de copiar, renomear e editar arquivos. Basta digitar mc em um terminal de comando. O programa tem uma interface simples, amigável e fácil de ser compreendida.
OBS: As duas linha de comandos acima se aplica no conectiva 10 versão RC1, para as próximas versões os nomes do diretórios deverão mudar e portanto você devera fazer essa correção pra adptar as futuras versões do conectiva 10, igualmente deve ser copiado o arquivo correspondente ao seu processador, caso ele não seja um dos exemplos acima.
vi Makefile
Na linha 6.1 que esta dessa forma
KERNEL_DIR := /usr/src/linux-2.6/
Troque por: KERNEL_DIR := /usr/src/linux-2.6.5-55674cl
Este é o pior conselho que se pode dar ao usuário comum. O editor vi é jurássico e completamente enigmático. Pode ser bom para um disquete de emergência, mas neste caso é melhor xingar a mãe do usuário do que mandá-lo usar o vi. Novamente o comando Utilidades > Bloco de Notas ou mc são as opções indicadas.
Salve o arquivo Makefile. Agora poderemos executar o make
make
Se tudo ocorrer bem precisamos copiar dois arquivos que vem nesse driver que são ltmodem.ko e ltserial.ko para o diretório /lib/module/versão do
kernel/kernel/drivers
Faremos da seguinte forma para o conectiva 10 RC1
cp ltmodem.ko /lib/modules/2.6.5-55674cl/kernel/drivers
cp ltserial.ko /lib/modules/2.6.5-55674cl/kernel/drivers
Usar o Konqueror ou mc para as copias é muito mais fácil.
O próximo passo agora e acresentar as seguinte linhas no arquivo modprob.conf essas linhas devem ser acresentadas no final do arquivo.
vi /etc/modprob.conf
Desnecessário repetir o absurdo do vi.
alias /dev/modem ltserial
alias char-major-62 ltserial
alias /dev/tts/LT0 ltserial
Salvando o arquivo agora execute o seguinte comando: depmod -a
Agora falta pouco para podermos navegar precisamos executar os seguinte comandos: mknod --mode=0640 /dev/ttyLT0 c 62 64
Vamos criar um link simbolico de /dev/ttyLTO para /dev/modem.
ln -sf /dev/ttyLT0 /dev/modem
Bom agora so resta chamar o kppp e configurar uma conta e navegar na internet.
Autor: Anderson Marcelo de Oliveira.
e-mail - andersonmsp@yahoo.com.br
Agradecimentos a: edmarcos
Assinante da linux-br que foi uns dos primeiros a navegar com o modem lucent no kernel 2.6
Observe no agradecimento acima como este procedimento é contado como vitória de um pioneiro. Infelizmente, isso é verdade. Mas não deveria. Se o Linux quer se expandir, procedimentos desta natureza devem ser abolidos em favor de um processo simples tipo 1 ou 2 cliques do mouse.
Um ritual esotérico envolvendo terminal de linhas de comando e editor vi como esse acima é a estratégia ideal para espantar os novos usuários. Não consigo ver nenhum motivo para que a Conectiva não tenha colocado o binário nos CDs de instalação. Acho que no mundo de hoje, em plena era da informação, é o computador que deve trabalhar para o usuário e não o usuário trabalhar para o computador. Vá lá que no grupo (a) haja quem goste desse ritual. Tudo bem, nada contra, Mas é preciso urgentemente facilitar as coisas para o usuário comum. É pura estupidez achar que o usuário comum vai se entusiasmar com o Linux precisando usar o vi ou terminal de comandos para configurar o sistema.
Voltemos ao ponto inicial desta seção, CONFIGURAÇÃO E USO DO SISTEMA INSTALADO
3) Configuração de câmera digital está errada no manual do CL10. Lá no manual está escrito o seguinte: Vá ao Centro de Controle Conectiva, clicando em Hardware e Periféricos > Scanners e Câmera Digital. O primeiro botão que aparece da esquerda para a direita chama-se Adicionar. Isto está errado ou por algum bug do sistema o configurador não foi instalado corretamente no meu micro. Não existe botão algum na mencionada tela. A segunda parte das instruções do manual funcionou e minha Canon A70 foi reconhecida sem ter sido adicionada na opção anterior. Isso é bom mas também é ruim, pois é um defeito que pode frustrar e confundir o usuário comum. O programa GtKam também não funcionou como esperado, aliás, para ser exato, além de abrir sua própria janela não fez mais nada. Estes aspectos são importantes, pois importar fotos com o gphoto2 sem interface gráfica, no mínimo, é um paradoxo.
4) Outra falha grave é o manual do CL10 não trazer uma palavra sequer sobre a instalação e configuração do wine que está incluso na distribuição. Por que? Ou melhor ainda, por que o wine não é instalado e configurado automaticamente?
5) Precisei configurar manualmente meus HDs no /etc/fstab para funcionarem com o supermount. Por que isso não é feito automaticamente na instalação? Já pensaram no tempo que um usuário comum vai perder até descobrir o problema? Isso é um absurdo e falta de consideração.
6) O screensaver quase sempre não entra. Por que?
7) O Kaffeine roda o vídeo mas não sai som. Por que? Obviamente verifiquei os controles de volume, tanto é que o Noatum toca perfeitamente o vídeo e áudio. O KMPlayer também toca normalmente MP3, mas o botão deslizante de andamento da música não se mexe.
8) O ConectivaOffice deveria vir com mais fontes de letras instaladas. O conjunto que vem é muito pequeno.
9) O xboard não veio na distribuição. Essa interface gráfica é fundamental para o gnuchess, um jogo clássico que não pode faltar.
10) Infelizmente, meu Scanner Genius HR6X Slim que permite imagear tanto positivos quanto negativos parece não ser suportado no Linux. A impessora HP 610C funcionou sem problemas.
Acho que não vou me estender mais nesta análise, ela já está demasiado longa. Entretanto, achei importante apresentar alguns dos problemas que podem e devem ser sanados por uma empresa do nível e porte da Conectiva.
Em termos de segurança do sistema, cabe uma observação conceitual importante. A alegação de que o Linux é muito mais seguro que outros sistemas é uma afirmação vazia e sem provas. Trata-se de uma segurança estatística apenas. O sistema é seguro porque não é atacado. Isso é obvio. De cada 100 ataques disparados, talvez 1 seja contra o Linux, os 99 restantes são contra o concorrente. Será esta a prova que o Linux é mais seguro? Além disto, o sistema também trava de vez em quando.
Caro leitor, procure entender que minha crítica não visa pichar ou desmerecer o CL10 ou qualquer outra distribuição. O Mandrake 10, por exemplo, me decepcionou, prefiro o CL10. Minha intenção é colaborar para o crescimento do Linux. Inclusive não faço nenhum esforço para ocultar uma certa ansiedade em ver o Linux melhor e mais amigável. Mas para atingirmos esse objetivo é preciso uma atitude mais imparcial e racional dentro da comunidade. A atitude religiosa de boa parte do Mundo Linux atrapalha, obscurece os defeitos e dá cobertura ao descuido dos desenvolvedores. O Linux precisa incorporar a filosofia "idiot proof". É esse o caminho do futuro. As vezes fico até pensando se não há no inconsciente coletivo uma postura deliberada contra a expansão. Será que a paranóia da segurança não está indo, inconscientemente, nesta direção?
Cesar Boschetti
Tecnologista Senior
INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
http://www.las.inpe.br
http://www.las.inpe.br/~cesar/welcome.html