:. Linux - software livre para as massas ou hobby da elite?

Diz um dito popular que amor, cor, religião, política e futebol não se discutem, numa nítida alusão aos perigos e armadilhas do subjetivismo humano. Mas discutir é preciso. Faz parte da liberdade, outro conceito igualmente mal compreendido e utilizado. A liberdade sempre envolveu riscos, muito embora não se deva jamais tomar isto como justificativa para cerceá-la. Mas, deixando a cor e o futebol de lado, não é difícil percebermos que o Linux é uma bela, sutil e complexa combinação de amor, política e religião, tudo livremente temperado ao gosto de cada um. Creio que em maior ou menor grau todos hão de concordar com isto. Mas e agora? Onde iremos com este coquetel? Para onde queremos ir? O que está em jogo? Queremos realmente democratizar o conhecimento ou apenas anarquizá-lo?

Vamos recordar alguns pontos importantes. O UNIX System IV, existente até hoje, foi lançado em 1983. O UNIX surgiu como uma evolução do Multics projetado na década de 1960. Trata-se de um sistema sofisticado e caro. Devido ao alto custo do UNIX, surgiu o Minix, uma versão livre e leve do UNIX escrita do zero com fins educacionais para quem quisesse estudar UNIX. É aqui que entra em cena nosso amigo Linus Torvalds. Em 1991, Linus Torvalds, então um estudante de Ciências da Computação da Universidade de Helsinki - Finlândia, por hobby, decidiu desenvolver um sistema mais poderoso que o Minix e adequado à plataforma 386 da época.

Vale lembrar que nessa época, o 386 era o processador que dominava o mercado. O 486 ainda estava no forno. A Microsoft era uma pequena empresa apoiada no DOS e no Word para DOS (primeiro programa a utilizar o mouse) que disputava o mercado com o WordPerfect. No setor de planilhas tínhamos o Lotus 123 e em termos de banco de dados dominava o DBASE. Um fato curioso, daquele tipo que nos leva a especular sobre a conspiração do destino, ocorrera cerca de 10 anos antes. No início da década de 80, a IBM estava procurando por empresas que poderiam desenvolver um sistema operacional que pudesse funcionar em seus computadores. A primeira escolha foi pela Digital Research, proprietária do CP/M. Mas Gary Kildall, então proprietário e presidente da Digital Research, esqueceu-se da reunião com a IBM e foi jogar golfe. A IBM foi recebida por Dorothy, mulher de Gary Kildall, que se recusou a assinar o termo de confidencialidade. Com isso o pessoal da IBM fechou contrato com a Microsoft, de Bill Gates. Se naquele dia Gary Kildall tivesse acordado com dor de cabeça e não fosse jogar golfe, quem sabe Bill Gates não seria hoje apenas um ilustre desconhecido.

Apesar de relativamente recentes em termos históricos, o computador e os sistemas operacionais possuem uma história rica e cheia de coincidências e fatos insólitos. Vale a pena o pessoal vidrado no software, fazer uma pausa nos how-tos da vida e dar uma espiada na história. Além do enriquecimento cultural, permite-nos uma melhor contextualização e compreensão dos fatos. Hoje é muito comum na comunidade Linux, xingarmos o Bill Gates e amaldiçoarmos o Windows. Mas alguém já se perguntou se isto realmente procede? Será que a Microsoft nasceu grande, poderosa e monopolista? Que fatores levaram o DOS e o Windows ao sucesso? Será que foi tudo uma grande maracutáia? Será que o Linux ganha alguma coisa com essa microsoft-fobia? Está na hora dos mais radicais começarem a se perguntar coisas desse tipo.

O Linux não é apenas um sistema operacional alternativo e gratuito. O Linux significa uma revolução nos conceitos de propriedade intelectual e na socialização do conhecimento. Num mundo onde o conhecimento e a informação são moedas cada vez mais caras, o Linux desponta como uma ruptura com os velhos e arraigados paradigmas capitalistas e, como toda revolução, traz embutido um certo espírito anarquista. Isso é natural. Entretanto, a história da humanidade nos ensina que a anarquia nunca foi longe em canto algum deste Planeta. Pode ser compreendida, bem aceita e até louvada dentro de certos limites de tempo e espaço, mas jamais se apresentou como processo duradouro e eficiente na construção de novos modelos e sistemas.

O Linux ainda vive em clima de anarquia e protesto. Isto pode ser perigoso para o seu futuro. São dezenas, centenas, senão milhares de distribuições concorrendo entre si pelo Mundo afora. O kernel é o mesmo, mas isto pouco ou nada significa em termos de uma real, prática e efetiva compatibilidade. A compatibilidade não existe inclusive entre versões consecutivas da mesma distribuição, o que, a par da gratuidade, não deixa de ser falta de profissionalismo e desrespeito ao usuário. Esse aspecto, oriundo na liberdade do código livre, é uma faca de dois gumes e precisa ser reavaliado.

Evidentemente, ninguém quer um grupo, seja pequeno ou grande, controlando o Linux e definindo suas diretrizes, formato e evolução. Mas é imperioso que a liberdade individual procure pautar-se por uma consciência democrática mais abrangente e no interesse maior de toda a sociedade. Trata-se de uma equação difícil e delicada, mas que precisa ser encarada com muita responsabilidade e maturidade.

Temos hoje um sistema poderoso, flexível, seguro mas ainda pouco amigável e ingenuamente ufanista. Os mais aficionados ainda insistem na divulgação equivocada dos recursos obscuros da linha de comando em detrimento de recursos bem mais amigáveis e modernos das interfaces gráficas. Parece haver uma intenção velada ou inconsciente de se criar em volta do Linux uma certa aura de dificuldade, como se isso fosse sinal de superioridade do sistema e de seus usuários. Proclama-se o caráter social do Linux de um lado, mas pratica-se o elitismo intelectual do outro. Um elitismo perverso e sectário que faz crer que quem não tem tempo para ler how-tos e compilar pacotes não merece ser usuário do Sistema.

Em lugar de uma visão crítica e construtiva sobre o sistema pratica-se o antimarketing da inveja. Em lugar de sugestões edificantes para melhoria do sistema, muitos preferem a propaganda duvidosa das fraquezas do concorrente. Em lugar de uma estratégia de divulgação simpática e de maior penetração, opta-se por uma repetição monotônica e sem fim de uma pretensa invulnerabilidade do sistema, esquecendo-se de levar em conta o grau de exposição e as leis estatísticas bem estabelecidas. O que é que se pretende com isto? O que é que estamos pretendendo fazer com o Linux? Mantê-lo cativo de uma casta de iluminados ou colocá-lo nas mãos do maior número possível de pessoas, principalmente dos mais humildes e menos afortunados? Qual é o foco do Linux? A minoria que tem tempo para ler how to e satisfazer seu ego na tela preta ou a enorme legião de usuários que precisam de um computador e de um sistema para trabalhar e estudar? Qual é o público alvo? A minoria radical que vive a jactar-se que se o Linux for tão simples quanto o Windows deixará de prestigiá-lo, ou a maioria que busca a simplicidade e flexibilidade operacional? Qual é a estratégia do Linux? Fazer do computador um desafio para distração da elite ou a solução para as massas?

Se a resposta for a favor da minoria nada mais há para dizer. Caso a comunidade esteja realmente pensando na maioria e no futuro, está na hora de uma reformulação total de conceitos e atitudes. É imperioso que haja mais união da comunidade opensource. É imperioso que haja maior sintonia e compatibilidade entre as principais distribuições. Essa união facilitaria enormemente a troca de informações, o suporte a hardware, a instalação de pacotes e o desenvolvimento de novos programas. A fragmentação, muito embora satisfaça o ego de cada um, está muito aquém de nos conduzir à verdadeira democratização do conhecimento e só contribui para o enfraquecimento do Sistema. Sem união não há futuro. A supervalorização da liberdade individualizada é um ato irracional próprio de animais selvagens e solitários. Somos seres sociáveis e precisamos de organização e cooperativismo para sobreviver e progredir. Um Linux anárquico e individualizado está condenado ao fracasso. Não podemos permitir que uma boa idéia se esfarele desta maneira.

Cesar Boschetti
Tecnologista Senior
INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
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